histórias que a História não conta

Saracura Vai-Vai

Convidado pelo Instituto Tebas para desenvolver a trilha sonora destas histórias que a História não conta, o poeta-músico Aloysio Letra compôs Tiririca no Saracura, recuperando a poderosa dinâmica do jogo de pernada que, no passado, mobilizava o corpo, o coração e a mente de sambistas tanto da pauliceia – Praça da Sé, Liberdade, Bixiga, Barra Funda –, como dos batuques do interior do estado. O compositor mostra como essa dinâmica ainda hoje nos acolhe

Tiririca no Saracura aluou ô massemba!
Por respeito a nossa terra. O Bexiga é nossa banda.
Tiririca no Saracura aluou ô massemba!
Da ladeira da memória eu vou pra sombra da Mulemba

A canção trespassa e costura o conteúdo dos sete episódios da série: Caminhada Luiz Gama Imortal; Marcha Noturna pela Democracia Racial; Marcha das Mulheres Negras; Marcha da Consciência Negra e Cerco de Piratininga, com especial implicação em Chaguinhas: o Santo Negro da Liberdade – “chaga no esquecimento / ferida que teima a sangrar”, de Rua da Glória, composta em 2016 – e neste Saracura Vai-Vai, que dá à luz a canção completa, como criação integrada ao conjunto dos sete documentários audiovisuais e dos sete ensaios fotográfico-literários: websérie e trilha sonora original como uma só e única obra, suas partes articuladas entre si e com o todo, sem fragmentação, pelo Bem Viver, na contramão do racismo e da colonialidade; uma vereda no coração desse grande ser tão árido e concreto; vestígios das vivas águas do rio; vida a brotar das frestas de onde tudo parece perecer.

Apesar da descrição depreciativa, temperada de piedade, do Correio Paulistano de 09 de outubro de 1907, que apresenta o território da Saracura como uma linha de casebres bordando a margem do vale fundo e estreito do riacho, onde “vão morrendo aos poucos – sacrificados pela própria liberdade que não souberam gozar, recozidos pelo álcool (…) – os que vieram nos navios negreiros”, o lugar foi reinventado pelas gerações subsequentes, a ponto de em 1982 Geraldo Filme proclamar sua saudade da Saracura e do “nosso cordão”, o Vai-Vai, fundado mais de 50 anos antes.   

O deslocamento narrado na canção de Aloysio – “da ladeira da memória”, que fica ao lado do metrô Anhangabaú, à “sombra da mulemba”, espécie de figueira originária de Angola, e que provavelmente simboliza o acolhimento característico do Bixiga – é mais um exemplo dessa reinvenção, a lembrança do Saracura, sufocado sob a Avenida 9 de Julho, umedecendo o percurso de um quilômetro e meio que, em princípio, poderia separar os dois lugares.

Fenômeno semelhante acontece no Piques, região que abrange não só a Ladeira e o Largo da Memória, em cujo centro resiste, há mais de dois séculos, o Obelisco do Piques, mas também o antigo Largo Riachuelo, atual Praça da Bandeira, por baixo da qual os córregos Itororó (Avenida 23 de Maio) e Saracura se encontram para formar o Anhangabaú, canalizado sob o Corredor Rodoviário Norte-Sul.

Se quisermos, podemos dar destaque à impotência das pessoas leiloadas ali durante o período da escravidão, como fez Paulo Cursino de Moura, em 1933, ao descrever os “cativos ‘Pais-João’”, as “desconsoladas ‘Mães-Benta’” e os “assustadiços rebentos negros, de olhos muito abertos, com a baba caindo do beiço grosso sequioso, talvez, do leite que os lábios róseos e brancos usurparam”. Temos autonomia, no entanto, para escolher outra abordagem, e imaginar, como Ernani Silva Bruno, também um clássico da crônica paulistana, as capoeiras e os capinzais em torno do Tanque Reúno, no Bixiga, entre outros pontos da baixada do Piques, como esconderijos onde se aquilombavam negros desordeiros, ladrões e escravos fugidos. “O tropel dos capitães de mato (…) deve ter soado muitas vezes pelas suas barrocas e pelos seus precipícios”.

De fato, em sua edição de 21 de janeiro de 1863 o mesmo Correio Paulistano estampava o seguinte anúncio:

A quem estiver lendo esta crônica singela, peço licença para juntar ao anúncio uma obra literária, publicada já em 1936, portanto mais de 70 anos depois dessa prova material do Piques como território de acolhimento de negros fujões. Trata-se de Dedicatória, um dos poemas do livro Negro preto cor da noite, de Lino Guedes:

Oh, negrada distorcida!
que não quer não outra vida
melhor que esta de chalaça,
por entre fumo e cachaça;
Pra você, negrada boa,
que chamam de gente atoa –
alinhavei tudo isto.
O que aqui está escrito
não conseguirá saber
porque ninguém sabe ler…
Isto muito desconsola,
Oh, getulina pachola,
que transforma o velho Piques
na estranha zona dos chics,
dos trucofechas, dos bambas
e dos sarados nos sambas.
Pra você, oh! Negrada,
carro de preso não é nada,
nem assusta a Resistência!
Zé-povinho sem tenência;
toma, gente do barulho,
este livrinho – um entulho
à sua malemolência,
o qual falará da dor
desta infeliz gente negra,
gente aqui da pontinha,
desgraçada gente minha,
a gente do meu amor!

Também aqui há mais de um olhar possível. Pode-se considerar apenas que a negrada frequentadora do Piques, que não quer “outra vida melhor que esta de chalaça, por entre fumo e cachaça”, é “distorcida”, “infeliz” e “desgraçada”, entre vários motivos, por não saber ler o que aí está escrito. Por outro lado, é graças a esses trucofechas, bambas e sarados nos sambas que o Vai-Vai está firme no pedaço, é tradição, e a luta – inclusive pelo direito à educação, à literatura e à memória – continua.  

Veja os demais episódios:

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